Quanto acumular para a independência financeira?

Essa é uma dúvida muito comum entre os que buscam a independência financeira, seja com o intuito de se aposentar ou não. Mas como saber quanto patrimônio você precisa acumular? E qual taxa de retirada você deveria adotar para não correr o risco de ficar sem dinheiro na velhice?

1 – Independência Financeira por patrimônio líquido

Uma das métricas mais difundidas é focar na acumulação de patrimônio líquido suficiente para cobrir suas despesas. Vários estudos já analisaram o comportamento histórico de uma carteira com renda variável (S&P 500) e renda fixa nos EUA* para identificar uma taxa segura de retirada anual (um dos mais famosos é o “Trinity study). À partir desses estudos a “Regra dos 4%” surge como a “taxa segura de retirada”.

Veja alguns dos estudos aqui, aqui e aqui.

Basicamente, a regra dos 4% já carrega em si a resposta de quanto você precisaria acumular para atingir a independência financeira. Ou seja, quando o seu custo de vida anual representar apenas 4% do seu patrimônio investido, o retorno dos investimentos passaria a cobrir os seus gastos com uma margem de segurança significativa no longo prazo. Uma forma simples de encontrar esse número é multiplicando seu custo de vida anual por 25 ou seu custo de vida mensal por 300. Pronto! Esse é o patrimônio que você precisa construir para poder viver de renda passiva de acordo com a regra dos 4%! Por isso ela ficou conhecida também como “regra dos 25” ou “regra dos 300”.

Vamos a um exemplo:

João fez as contas e percebeu que ele precisa de R$ 4.000,00 por mês.

R$ 4.000,00 * 300 = R$ 1.200.000,00.

João precisa de R$ 1.200.000,00 investidos para atingir a independência financeira.

Na tabela abaixo podemos ver o quanto seria necessário acumular para cada renda mensal/anual de acordo com a regra dos 4%.

Ressalto que a regra dos 4% é apenas uma referência baseada no retorno histórico de um portfólio de renda variável e renda fixa (com maior taxa de sucesso em carteiras com alocação de 50% a 75% em renda variável). Essa métrica não se aplica para quem investe em outros tipos de ativos ou não possui uma carteira de ações diversificada o suficiente para espelhar os movimentos do mercado (S&P 500 ou Ibovespa)**.

Considerando o meu perfil de investidor, essa é uma métrica super conservadora. Exploramos a regra dos 4% com mais detalhes no post “Entenda o racional por trás da regra dos 4%“.

2 – Independência Financeira por fluxo de caixa

Outra métrica difundida por grandes influenciadores no mundo dos investimentos como Leandro Cabral, por exemplo, é simplesmente focar na acumulação de renda passiva suficiente para cobrir suas despesas. Quem foca mais em geração de renda passiva do que em valorização de ativos (ações de dividendos, fundos imobiliários, imóveis de aluguel, benefícios previdenciários, etc.) pode acabar atingindo a independência financeira antes ou depois de acumular um patrimônio líquido de 25 vezes a despesa anual. Por essa métrica, assim que sua renda passiva passar a cobrir 100% de suas despesas você atingiu a independência financeira, independente do seu patrimônio.

Teoricamente, a renda passiva de uma carteira bem diversificada em ativos de qualidade e com foco em dividendos (as “vacas leiteiras”) tende a, pelo menos, acompanhar a inflação no longo prazo, garantindo a preservação da sua renda e do principal.

Para quem pretende adotar essa estratégia, recomenda-se a criação de uma “folga” entre renda passiva e custo de vida. Assim, você pode continuar reinvestindo uma parcela dos dividendos recebidos (garantindo o crescimento da sua renda futura) e cria uma “margem de segurança” para os períodos de crises/incertezas econômicas, quando os dividendos tendem a diminuir muito (COVID-19, por exemplo).

3 – Independência Financeira “à moda da casa” 

Outra alternativa é mesclar sua renda passiva (dos itens 1 ou 2) com renda ativa de alguma atividade que você gosta e faria até de graça.

Eu acredito que se aposentar cedo para ficar o dia todo “moscando” seria uma forma bem eficiente de suicídio. Então, enquanto você trabalha pelo dinheiro em algo que definitivamente não faria de graça, procure desenvolver projetos à parte que você goste e faz/faria mesmo sem receber nada por eles. Depois, busque formas de monetizá-los!

Na maioria das vezes o seu “trabalho dos sonhos” não vai gerar, pelo menos de início, uma renda que substitua o seu trabalho atual. Senão você não estaria mais trabalhando nele, não é mesmo? Mas tocar algum projeto que você goste nas horas vagas pode acabar encurtando sua jornada IF.

Eu, por exemplo, me apaixonei pelo tema “independência financeira” em 2017. Já estudo sobre o assunto nas minhas horas vagas de qualquer forma e decidi começar esse blog porque, além de curtir o assunto, acredito que ele tem o potencial de transformar vidas (inclusiva a minha). Por enquanto esse blog é mais uma forma de lazer do que um trabalho (amo estudar/escrever sobre IF, mas o blog só gera despesas). E se algum dia esse blog começar a gerar renda? Não vejo problema algum em computá-la (mesmo que não seja totalmente passiva) no cálculo da quantidade de fluxo de caixa e patrimônio necessários para a independência financeira; pois esse tipo de projeto apenas corrobora com a minha definição pessoal de independência financeira.

Renda totalmente passiva é mais rara do que pensamos.

Na verdade, se você parar pra pensar, quase não existe renda totalmente passiva (apenas atividades com maior retorno por hora investida). Você acha mesmo que ser dono de imóveis de aluguel ou de algum negócio é uma renda totalmente passiva? Você considera os seus investimentos em renda variável e fixa como uma renda realmente passiva? Eu não sei você, mas os meus investimentos ainda me tomam muitas horas por ano com estudo e gerenciamento (por isso eu estou cada vez mais propenso à ideia de indexar tudo). Só para declarar o imposto de renda eu gastei quase 20 horas esse ano.

Há muitas formas de definir quanto patrimônio você precisa para atingir a independência financeira. Essas são apenas as três principais que eu conheço. O lado bom é que você não está preso a nenhuma métrica. Conforme você vai estudando, se conhecendo melhor, solidificando o seu perfil de investidor e refinando os seus planos para aposentadoria será mais fácil identificar a métrica que faz sentido para você.

Você já tem uma métrica bem definida? Utiliza alguma outra métrica não abordada aqui? Deixe nos comentários!


Apêndice

* aposenteaos40.org traz um estudo sobre a taxa segura de retirada anual no Brasil. E, nos 25 anos do plano real, a regra dos 4% tem apresentado uma margem de segurança ainda maior no Brasil do que nos EUA.

** Superar o índice de referência no longo prazo é dificílimo (mesmo que “casas de análise” e “fundos de gestão ativa” queiram te convencer do contrário). Quanto mais eu estudo, menos eu me preocupo com a ideia de “bater o mercado”. Entretanto, para quem reside no Brasil e não quer investir no exterior, o “stock picking” (investir direto em ações ao invés de “indexar” através de algum ETF, por exemplo) ainda pode fazer sentido por três motivos:

1. Não há isenção de Imposto de renda para vendas de até R$ 20.000,00 por mês nos ETFs (como é o caso das ações).

2. Dividendos são automaticamente reinvestidos nos ETFs. Ou seja, você acaba pagando imposto sobre dividendos sob a forma de “ganho de capital”. Essa é uma grande desvantagem dos ETFs, pois dividendos ainda não são tributados no Brasil.

3. Taxas de administração de ETFs e fundos de índices também têm efeito composto no longo prazo. O BOVA11, por exemplo, tem uma taxa de 0,30% ao ano. Porém, aqui nos EUA já temos fundos com taxa zero (FNILX, FZIPX, FZROX, FZILX…).

Ou seja, embora bater o índice de referência seja difícil, bater o retorno líquido dos ETFs no Brasil é relativamente fácil por causa dos custos com taxas e impostos embutidos nesse tipo de veículo de investimento. Se eventualmente essas diferenças de custos desaparecerem (dividendos passarem a ser tributados ou distribuídos pelos ETFs), (ETFs passarem a ter isenção de IR para vendas de até R$ 20.000,00 por mês ou ações perderem a isenção) e (taxas dos ETFs diminuírem ainda mais), eu serei o primeiro a sugerir a indexação no Brasil.


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Isenção de responsabilidade

O ifologiapop.com disponibiliza gratuitamente informações que o autor acredita serem corretas. Entretanto, em nenhum momento o autor oferece conselho individualizado e as informações disponibilizadas aqui podem não ser adequadas ao seu perfil de investidor. O autor não é um profissional licenciado na área financeira, apenas um estudioso e entusiasta de assuntos relacionados à independência financeira (conheça mais sobre o autor aqui). Caso o leitor necessite assistência especializada sobre qualquer questão legal e/ou financeira, recomenda-se a consulta de um profissional. Esse blog não tem o intuito de servir como base para qualquer decisão financeira e nenhuma garantia é feita sobre a veracidade das informações aqui contidas. Resultado passado não é garantia de resultado futuro. Portanto, o autor especificamente se isenta de responsabilidade por qualquer consequência direta ou indireta do uso e aplicação de qualquer informação aqui contida.

4 comentários em “Quanto acumular para a independência financeira?”

  1. Muito esclarecedor! Pela primeira vez consegui ter uma ideia de quanto preciso pra viver de renda passiva. Excelente!!!

    1. Que bom Dane!
      Essas são apenas referências. Conforme você for estudando e solidificando o seu perfil de investidor, vai ficar mais fácil identificar ou criar a métrica que faz mais sentido pra você!
      Sucesso pra você!

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