O real custo de terceirizar o seu corte de cabelo

Eu sempre flertei com a ideia de cortar o cabelo em casa; não somente pelo dinheiro, pois confesso que nunca tinha parado pra analisar o real custo financeiro do “tapa mensal no coco”. Eu odiava ter que perder horas na fila toda vez que precisava cortar o cabelo (por algum motivo, nas cidades onde morei no Brasil, a revolucionária ideia do “barbeiro-com-hora-marcada” ainda não havia chegado). Em lugares assim, a palavra “cabeleireiro” é xingamento (o certo é “barbeiro”) e você pode se encontrar em situações um tanto “delicadas”…

Uma vez, por exemplo, o meu barbeiro estava fazendo a minha barba e falando (sozinho) que “essa viadagem toda que a gente vê hoje em dia é falta de laço”. Pra aumentar ainda mais o meu desconforto, enquanto passava a navalha no meu pescoço, me perguntou “o que você acha”?

Eu, que tinha amigos gays em uma cidade de interior, deveria ter abraçado a “cabelo-suficiência” naquela ocasião, mas infelizmente apenas mudei de barbeiro.

Eu até pensava que minha esposa poderia facilmente aprender a cortar o meu cabelo. Mas eu cortar o cabelo dela? Na tesoura? Impossível! Ela gosta daqueles cortes estilo bob em “layers” e com um “shape triangular”. E eu tinha certeza que esse tipo de corte era complexo demais para mim. Mas é incrível o que se pode aprender no youtube com um pouco de força de vontade hoje em dia!

Infelizmente só parei para fazer a conta financeira quando nos mudamos para os EUA (para acelerar nossa jornada IF), e o preço do corte de cabelo mudou de R$ 35 e R$ 50 (reais) para $35 e $50 (dólares). Quando você ver os meus números, talvez se sinta inspirado a experimentar a “cabelo-suficiência” também.

Você pode fazer um exercício como o que eu fiz abaixo para descobrir o custo de terceirizar o seu corte de cabelo.

Aqui em casa somos em três:

Eu – 1 corte por mês* a R$ 35,00 (R$ 420 por ano).

Esposa e filha – 1 corte a cada 3 meses a R$ 50,00 (R$ 400 por ano).

40 deslocamentos por ano considerando ida e volta. Subestimei o custo do deslocamento em apenas R$ 2,00 por trecho para simplificar (R$80,00 por ano).

Ou seja, nosso custo com corte de cabelo no Brasil era R$ 900,00 por ano ou R$ 75,00 por mês. Aqui nos EUA seria facilmente mais que $ 75 DÓLARES por mês, se não tivéssemos adotado a “cabelo-suficiência”. Mas vamos adotar os $ 75,00 como referência.

Esses $ 75,00 dólares mensais, que eu não preciso gastar, trazem dois benefícios financeiros:

1. O benefício mais conhecido é o dos juros compostos. Esses $ 75,00 a mais de aportes todo mês significam um patrimônio extra de $ 115.396,36 em 30 anos a uma taxa de 8,43% a.a. (retorno histórico do Ibovespa ajustado pela inflação). Isso seria equivalente a R$ 623.140,34 reais conforme a cotação atual de R$ 5,40

2. O segundo, e menos conhecido, é o benefício da redução do custo de vida. Reduzir o seu custo de vida mensal em um valor “X”, automaticamente reduz a quantidade de patrimônio necessário para atingir a independência financeira em “300X” (conforme a regra dos 4%). Nesse exemplo, $ 75,00 dólares a menos no meu custo de vida mensal representa $ 22.500,00 dólares a menos que eu preciso acumular. Ou seja, R$ 121.500,00 reais, conforme a cotação atual de R$ 5,40.

Observação: antes que alguém venha me dizer que eu tenho que computar o custo da minha hora de trabalho para ver se essa forma de economia vale a pena – eu perdia mais tempo no cabelereiro do que eu “perco” cortando o cabelo em casa. Sem falar que um dos principais motivos da minha busca pela independência financeira é poder passar mais tempo com as pessoas que amo. E, nesse exemplo, a pessoa que amo está mexendo no meu cabelo enquanto eu tomo uma cervejinha gelada ao som de Natiruts. Tem forma melhor de acelerar minha jornada IF?

Mas a questão vai muito além do financeiro!

Vivemos em uma geração de “especialistas e consumistas”. Ou seja, somos estimulados a nos especializar ao máximo para resolver apenas um tipo de problema (uma vez eu vi um documentário onde o cientista tinha se especializado em “chifre de Tricerátops”). Oi!?

E, com o dinheiro produzido com nossa habilidade extremamente específica, resolvemos todos os demais problemas “consumindo produtos ou serviços”.

Jacob Fisker, autor do livro “Early Retirement Extreme: A philosophical and practical guide to financial independence”, adotou uma estratégia totalmente diferente.

Ele diz no livro que sempre achou curioso que “especialistas” aconselham que os seus investimentos devem ser altamente diversificados, enquanto recomendam que suas habilidades profissionais sejam altamente “específicas”.

Para ele, custear a resolução de todos os demais problemas apenas com a renda ativa de uma habilidade extremamente especializada é uma estratégia muito arriscada em um mundo em constante mudança. E só temos a ganhar ao adotar uma postura mais generalista. Ou seja, alguém que busca se tornar competente em uma vasta variedade de áreas (intelectual, física, artística, social, etc.) acaba se tornando uma pessoa muito mais interessante, criativa, versátil, resiliente, autossuficiente e, consequentemente, independente financeiramente (no sentido de sequer precisar de dinheiro para solucionar a maioria dos seus problemas). Por isso, deveríamos organizar nossa vida (investimentos e habilidades) mais como um “time”, que não depende exclusivamente de nenhum “jogador individual”. E a solução para isso, segundo ele, seria aprender a “criar” soluções em vez de apenas “comprá-las”.

Ele propõe o foco em “produzir” e não em apenas “consumir” as soluções dos nossos problemas e adotou estratégias de autossuficiência extremas para se aposentar em tempo recorde. Entretanto, incentiva a todos a fazer pelo menos o básico (cozinhar a própria comida, ter uma horta, caminhar e pedalar como transporte, cortar o próprio cabelo, etc.). Um clássico literário, para quem quiser ressignificar seus conceitos de vida simples e autossuficiência, é o livro “Walden, ou A vida nos bosques” por Henry David Thoreau.

Quem quiser se aventurar a desenvolver mais essa habilidade extremamente útil, só precisa de internet e boa vontade. É sério, pesquise no youtube o corte de sua preferência e copie!

Tem gente que inclusive corta o próprio cabelo (eu prefiro cortar o cabelo da Sra. IFP e ela cortar o meu)!

Você não necessariamente precisa comprar nada até ter certeza de que vai realmente adotar a “cabelo-suficiência”. É muito provável que algum familiar/amigo tenha máquina e tesoura de cabelo. Pegue emprestado e teste o conceito antes.

Uma vez que você provar para você mesmo que consegue e quer passar a cortar o seu cabelo em casa, pode fazer sentido comprar sua própria máquina e/ou tesoura.

Para montar um kit como o que eu tenho, você precisaria de uma máquina com os pentes graduadores, um pente e uma tesoura (só uso tesoura no cabelo da Sra. IFP. O meu é só na máquina). Esse é o kit mais parecido com o que eu tenho em casa:

No meu caso seria um investimento de R$ 179,80 (consulta em 12/02/2021), com um retorno de R$ 4.860,00 já no primeiro ano (na cotação de hoje)!

Pra quem gosta de dividendos, isso é um “Yield on cost”** anual de 2.703%! Nada mal, né?

Podemos encurtar nossa jornada rumo à independência financeira “aportando mais” e/ou “precisando de menos”. Você pode até decidir que faz mais sentido continuar terceirizando algumas coisas para otimizar o seu ativo mais precioso (tempo). Mas quanto mais habilidades distintas você “colecionar”, mais interessante, criativo, versátil, resiliente e autossuficiente você se torna (inclusive passa a ter a opcionalidade de reduzir drasticamente a sua dependência de dinheiro em momentos de crise).

Saber cortar cabelo é apenas uma das inúmeras habilidades extremamente úteis que você pode desenvolver, caso a estratégia da autossuficiência faça sentido para você.

Outras habilidades que eu acho que todos deveriam buscar desenvolver:

  1. Cozinhar
  2. Cuidar de uma pequena horta
  3. Costurar
  4. Manutenção básica de veículos e casas
  5. Caminhar/pedalar (transporte)
  6. Declarar imposto de renda

Você consegue pensar em alguma outra ideia? Deixe nos comentários!

Um abraço IFólogo(a)!


* Sim, preciso cortar cabelo todo mês para não ter caspa e eu ainda não contabilizei os eventuais “tapas na barba” que eu dava em ocasiões especiais.

** Yield on cost é o dividendo em relação ao preço de aquisição de um ativo.


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6 comentários em “O real custo de terceirizar o seu corte de cabelo”

  1. Bem interessante, já tinha feito esse cálculo mas como o corte aqui é relativamente barato (R$ 20) e eu gasto pouco tempo (30 min), não achei a troca de hábito válida e achei que seria menos oportuno pra mim.

    Mas rapaz, pensar em dólares tudo muda né hahaha

    Abçs

    1. Pois é EI… Depende muito da realidade de cada um mesmo. Aqui em casa somos três pessoas, com custo em dólar e eu preciso cortar o cabelo todo santo mês pra não ter caspa… Kkkk… Fora que é um “trabalho” que nos obriga a passar tempo juntos… Então para nós faz muito sentido.

      Um abraço!

  2. Muito legal, exercito esse desprendimento por pelo menos uns 15 anos, mas nunca havia feito a conta dos impactos.
    Da sua lista só terceirizo – para a dona encrenca – a parte da costura, o resto faço tudo e ainda treino o meu piá nas artes domésticas hehehe

    parabéns e sucesso

  3. Eu tenho uma ideia melhor para as mulheres! Rs
    Deixa o cabelo crescer por 2 ou 3 anos, e ao cortar, vende esse cabelo!

    Tenho doado cabelo desde 2015 (por vontade mesmo) mas ano que vem, estou cogitando seriamente vender para uma perucaria. Ajudo pessoas também e ainda ganho uma graninha! 😉

    PS: Compartilho da sua impaciência no cabeleireiro, por isso, sempre fui de cortar cabelo pelo menos de 1 em 1 ano. Kkkk

    PS2: Agora minha avó está morando conosco e ela é cabeleireira aposentada. Da próxima vez que eu cortar o cabelo, nem vou mais precisar pagar! Ela já aparou minhas pontinhas há 2 meses atrás!

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