A caverna de Platão e o movimento FIRE

Spoiler alert: contém ironia e ilustrações da minha filha.

Você já ouviu falar da alegoria da caverna de Platão?

A alegoria, ou mito da caverna, é um clássico diálogo entre Sócrates e Glauco presente no livro “A República” de Platão publicado em 379 antes de cristo.

Eu acho que “A República” deveria ser leitura obrigatória nas escolas. Mas se você não é muito chegado em leitura, o filme “Matrix” é uma versão moderna do mito da caverna.

Então fica a dica de dois clássicos com uma essência alegórica muito semelhante.

Mas hoje vamos explorar a caverna de Platão.

Bora lá?

No diálogo, Sócrates conta uma história em que prisioneiros foram acorrentados em uma caverna escura desde a infância. As correntes os prendiam de tal forma que eles sequer conseguiam olhar para o lado.

No escuro, eles podiam ouvir e conversar uns com os outros, mas não conseguiam se ver e seus olhos apenas viam sombras em uma parede a vida toda.

Como fora da caverna havia um “fogo” que queimada longe e alto (o sol), sua luz projetava a sombra deles, e de tudo que passa atrás deles, nessa parede.

Naturalmente, como eles cresceram testemunhando apenas as sombras interagindo e conversando, acreditavam que a realidade se resumia àquelas sombras. Eles inclusive acreditavam que eles mesmos eram apenas sombras. E tudo fazia muito sentido para quem nunca tinha experimentado nada diferente daquela realidade.

Mas um dos prisioneiros foi libertado das correntes. E, pela primeira vez, ele viu os outros prisioneiros e a si mesmo. Após sua visão se ajustar à luminosidade de fora da caverna, descobre que a realidade era muito mais colorida do que as sombras da parede que estava acostumado.

Após se aventurar fora da caverna por um tempo, ele sente a responsabilidade moral de voltar e alertar os outros prisioneiros sobre o mundo de possibilidades fora da caverna.

Entretanto, ao retornar à caverna, seus olhos não estão mais acostumados com aquela escuridão. Os outros prisioneiros, percebendo que sua visão no escuro estava comprometida, atribuem o ato de “sair da caverna” com a sua confusão e não acreditam nele. Tragicamente, eles estavam acostumados demais com o mundo das sombras para sequer questionar que pudesse existir qualquer outra realidade além daquelas projeções na parede.

“Beleza IFP, essa história pode até ser considerada um clássico, mas qual aplicabilidade prática que ela tem na nossa vida hoje?”

Pois é…

Difícil de acreditar que os prisioneiros dessa caverna não questionariam a realidade à qual foram condicionados a vida toda, né?

É impossível que eles não dariam ouvidos para alguém que saiu da caverna e jurava que o mundo podia ser muito mais colorido do que aquela realidade das sombras na parede…

Na vida real isso jamais aconteceria, certo?

Já pensou se hoje tivéssemos algo parecido com os prisioneiros da caverna de Platão?

Vamos supor que a maioria das pessoas hoje fosse, por exemplo, “escrava de salário”.

Claro que não é o caso. Longe de mim tentar relacionar um mito, criado por uns desocupados há milênios atrás, a uma civilização tão evoluída como a nossa.

Mas vamos apenas conjecturar que esses “escravos de salário” tivessem sido condicionados desde a infância a um nível de consumo e uma mentalidade que os tornasse totalmente dependentes dos seus salários.

Vamos supor que eles vivessem uma vida de abundância material à qual sequer reis do passado tinham acesso. Mas, mesmo assim, buscassem solucionar seus desconfortos existenciais com “mais consumo”; sem perceber que seus hábitos de consumo são exatamente a causa primária do desconforto.

Não seria muito doido?

Suponha que a “parede” atual não mostrasse as “sombras” das pessoas pelo que elas são, mas pelo que elas possuem.

Não seria bizarro se eles sequer questionassem a possibilidade de haver algo além das “sombras na parede” às quais foram condicionados?

Não estou dizendo que é assim. Longe de mim…

Mas caso esses “escravos de salário” realmente existissem, imagino que as “sombras nas paredes de suas cavernas” mostrariam carrões de luxo, casarões, iates e outros “brinquedos” como símbolos de sucesso.

Entretanto, presumo que a realidade parcial das “sombras” falharia em mostrar que essas coisas seriam todas financiadas com energia vital. O que implicaria em uma perpetuação da dependência de salário, uma vida estressante, falta de tempo para desfrutar dos “brinquedos” que eles trabalham tão duro para comprar, e pais/mães ausentes.

Já que estamos apenas divagando, vamos supor que esses “escravos de salário” chamassem sua incessante “corrida de ratos” de “ganhar a vida”. E que eles estivessem tão ocupados “ganhando a vida” que não tivessem tempo de “viver a vida”; ou melhor, sequer percebessem que na verdade estão “vendendo a vida”.

Créditos da imagem: minha filha

Não seria irônico?

Imaginemos que nesse cenário hipotético, estar “sempre ocupado” ou “sempre endividado” fossem uma virtude. E que eles não estivessem apenas financeiramente “acorrentados” aos seus financiamentos, dívidas e compromissos financeiros; mas estivessem também mentalmente “acorrentados” à sua inabilidade em enxergar outras possibilidades “fora da caverna”.

Imaginemos que eles apenas buscassem se destacar nas “sombras da parede”, mas não questionassem a “parede em-si”.

Mas, já que estamos conjecturando um cenário totalmente fictício, vamos “forçar a amizade” um pouco.

Vamos supor que esses escravos de salário tivessem mais calçados do que pés. Tipo, uns cinco pares pra apenas dois pés, por exemplo.

Não seria engraçado?

no way wtf GIF by Warner Bros. Deutschland

E se eles tivessem roupas para passar mais de uma semana sem repetir/lavar absolutamente nada? Mesmo tendo apenas um corpo.

Não seria cômico?

Vamos supor que eles comprassem carros 4X4 para dirigir no asfalto e carros esportivos para dirigir em vias com limite máximo de velocidade de 60 km/h.

Vamos imaginar que, nesse cenário hipotético, eles sempre preferissem o elevador às escadas; e sempre preferissem ir para o trabalho, faculdade, academia […] com seus carros ineficientes do que caminhar/correr/pedalar (afinal, eles estariam ocupados demais para perder tempo com as escadas, seus tênis de corrida altamente especializados e suas bicicletas). É claro que eles compensariam todo o sedentarismo da “caverna” pagando uma mensalidade de alguma academia top, ou ainda comprando algum aparelho de última geração para se exercitar em casa.

Sugestão de aparelhos

Já pensou se eles tivessem robôs aspiradores de pó, batedeiras, multiprocessadores, abridores de lata/vinho elétricos e outras dezenas de itens altamente especializados? Talvez todas essas bugigangas na verdade seriam convenientes, já que os escravos de salário estariam ocupados demais trabalhando, pra pagar por essas coisas, para ter tempo de abrir uma lata de milho manualmente, por exemplo…

Já imaginou se eles comprassem tantas coisas ao longo dos anos que tivessem que mudar para uma casa maior ou alugar um segundo espaço apenas para “hospedar” suas coisas?

Não seria hilário se esse cenário que acabamos de descrever fosse verdade?

Sad Kristen Bell GIF

Mas, e se uma pequena parcela desses escravos de salário tivesse descoberto que a vida oferece inúmeras outras possibilidades “fora da caverna”?

E se eles tivessem questionado se realmente vale a pena gastar os melhores anos de suas vidas acorrentados a um trabalho, que eles não fariam de graça, só para colecionar coisas que eles raramente usam?

E se eles recusassem a proposta da “caverna” de “ter que trabalhar até morrer, somente pelo privilégio de continuar vivendo“?

E se eles chegassem à conclusão de que eles não nasceram apenas pra competir com o seu “vizinho de cela” para ver quem vai morrer com mais “brinquedos”?

E se eles parassem de gastar dinheiro que eles não têm (dívidas), para comprar coisas que eles não precisam, para impressionar “vizinhos de cela” que eles nem gostam?

E se essa pequena parcela de prisioneiros percebesse que “mais” nem sempre é “melhor”? E se eles descobrissem que “mais” é um tipo de horizonte? Uma miragem que retrocede na mesma proporção em que a buscamos?

E se eles descobrissem que sempre que eles dizem “sim” para “mais consumo”, estão automaticamente dizendo “não” para outras coisas (geralmente mais importantes)?

Como pescar com sua filha, por exemplo.

E se eles percebessem que além de “merecer” alguns bens materiais, eles também merecem não precisar sempre trocar vida por dinheiro, e merecem poder ver seus filhos crescerem?

E se eles percebessem que ao sair da “caverna” (de um consumismo irracional) eles poderiam facilmente criar uma “folga” entre salário e custo de vida?

E se eles percebessem que ao usar essa “folga” para comprar ativos, e não passivos, eles se tornariam cada vez menos dependentes de salário?

E se eles descobrissem que fosse possível tornar o salário (renda ativa) algo totalmente opcional (independência financeira)?

E se eles descobrissem um modelo replicável para se libertarem dos grilhões da renda ativa em apenas uma década?

E se?

FIRE poderia ser uma alternativa interessante para esses escravos modernos, caso eles realmente existissem.

Ainda bem que a sociedade de hoje não sofre desse problema, né?

Ufa…

Ironias à parte; mas se você, assim como eu, é um inconformado com as “sombras da caverna”, sinta-se em casa!

Bora aprender juntos a sair da “caverna” de uma vez por todas!

Um abraço IFólogo(a)!


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14 comentários em “A caverna de Platão e o movimento FIRE”

  1. Excelente! Seus exemplos são incríveis e resumem bem o racional que, creio eu, todos nós já tivemos. O consumo consciente, mesmo que não seja pequeno, traz benefícios incalculáveis à vida.
    Abraço

    1. Exatamente AC!
      Inclusive os benefícios de um consumo mais consciente vão muito além do financeiro! Até onde eu sei, só temos uma vida e um planeta, né… rsrs…
      Um abraço!

  2. Fala mano,

    Essa alegoria da caverna de Platão, assim como a filosofia de Epicuro e dos Estoicos são exemplos clássicos de como os seres humanos já viviam e vivem, assim como também as novas gerações, viverão de forma alienada se não pararem para uma profunda análise de suas vidas e forma de vida em sociedade.
    Parabéns pelo texto e excelentes ilustrações da pequena.

    Abraço!

    1. Muito bem colocado mano!
      Nossa, lembrei dos meus tempos de estudo na psicologia e sociologia agora heim…
      Quanto mais inseridos nos mecanismos disciplinares da “caverna”, menor é a capacidade de resistência/revolta e maior é a docilidade e utilidade econômica desses escravos de salário.
      O mais triste é que os mecanismos biopolíticos da “caverna” não se limitam a reprimir comportamentos espontâneos, mas na verdade os produzem e os “normalizam” a partir de um critério de utilidade econômica; não necessariamente descaracterizam o indivíduo, mas justamente o fabricam.
      Mito da caverna versão Foucaultiana kkkkk…
      Um abraço!

  3. Hahahahaha… Esta foi a melhor: “Longe de mim tentar relacionar um mito, criado por uns desocupados há milênios atrás, a uma civilização tão evoluída como a nossa.” Tão evoluídos que estão perdendo a capacidade de pensar, são pensados! Adorei a correlação do mito platônico com a corrida de ratos, rsss. Enfim, também estou nesse caminho de me libertar, nos vários sentidos que o mito possibilita. Adorei sua forma de escrever e os desenhos da filhota.

    1. Pois é Dane Éllen…
      É muito difícil pensar de forma independente mesmo. Somos seres sociais, né… Nossa própria identidade é forjada na coletividade… Por isso acabamos “sendo pensados” pela coletividade…
      E poucos conseguem conceber algo além daquilo ao qual foram condicionados a vida toda… Você é uma raridade!
      Parabéns e sucesso na sua jornada de fuga da caverna! rsrs…
      Um abraço!

  4. Oi IFPop

    Gostei muito da imagem desenhada por sua filha. Desde cedo ela já tem noção da corrida dos novos-ratos. Essa é uma ação que pretendo ensinar para o pequeno VAR.

    Sair da caverna é algo doloroso, porem mais doloroso é tentar resgatar os prisioneiros-familiares-amigos que continuam presos. E ouvir a frase e suas variantes: Fazer o que? Sempre foi assim e por que devo mudar?

    Dias desses conversei com minha irmã caçula que teve uma discussão com minha outra irmã mais velha. Um dos motivos da discussão é que minha irmã não concordava que a outra lia muito e pensava “demais”. Acaba sendo uma variante do “Fazer o quê?” e não questionar o que está a nossa volta e continuar vivendo na resignação.

    Por isso sou grato por textos assim que fazem pensar e refletir. Mas do que pensar em finanças, quero viver uma vida plena de significados e “fora da caverna”.

    Abraços,

    1. Excelente VAR!
      Nossos filhos terão o privilégio de crescer em um lar que aprendeu a lidar com o dinheiro de forma mais saudável que a maioria, e vão utilizá-lo como uma ferramenta para uma vida mais livre e plena!
      Sair da caverna, ou da matrix, é sempre doloroso. Mas eu acho que um dos maiores impedimentos para “sair da caverna” é que a maioria sequer percebe que está presa… Sente o desconforto existencial de ser escravo de salário, mas não percebe aquela realidade como uma “sombra na parede”, mas como a única realidade possível.
      Um abraço!

  5. Muito bom os exemplos, estou rindo até agora.
    Colocarei o livro “A República” em minha lista de leitura. Estudei o mito da caverna em minha graduação, mas não recordava direito e não cheguei a ler o livro por completo.
    Parabéns pela filosofia.

  6. Um dos melhores textos que já li sobre a filosofia FIRE, parabéns. E assim como os escravos da caverna, os escravos do salario insistem em dizer que somos loucos, mas a gente vê o resultado lá na frente.
    Ah minha meta FIRE tb é pra 2017, boa sorte pra nós.

    1. Obrigado Carol!
      Pois é… Uma vez que você descobre que existe um mundo de possibilidades “fora da caverna” é muito difícil se conformar apenas com suas sombras mesmo…
      Um abraço e boa sorte na sua jornada FIRE!

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